Show musical e exposição encerram projeto com presos em Guarulhos

        Ontem (19) os sentenciados do semiaberto da Penitenciária José Parada Neto, em Guarulhos, tiveram um domingo diferente, quando assistiram a um show com alguns dos principais nomes do hip-hop brasileiro como Dexter, Mano Brown e GOG. A apresentação marcou o encerramento do projeto Como Vai Seu Mundo? O evento contou também com as presenças das cantoras Esmeralda, ex-moradora de rua e ex-interna da antiga Febem, hoje Funcdação Casa, e de Yzalu.
        A iniciativa é pioneira e teve início em janeiro deste ano, com a finalidade de ampliar as oportunidades para reinserção dos reeducandos do sistema prisional na sociedade. Os presos participaram de oficinas de arte e comunicação, teatro, música, DJ, rádio, fotografia, fanzine, vídeo e informática. 
        Os trabalhos produzidos por eles foram expostos durante as festividades de encerramento, entre os quais uma música interpretada pela cantora Yzalu; dois programas de rádio e dois vídeos, além de uma exposição de fotos, fanzine e demais trabalhos desenvolvidos no decorrer do projeto. Os participantes receberam certificados das 80 horas de atividades culturais.
        W.R.C foi o primeiro sentenciado a ser chamado para receber o certificado. Ele, que há oito anos cumpre pena, disse nunca ter visto nada parecido. “Aprendi muitas coisas, e pretendo aproveitar a oportunidade e a experiência. Temos tudo para voltar a conviver em sociedade. Existem pessoas que gostam e se preocupam com a gente.” 
        Para R.S, de apenas 19 anos, e há 11 meses cumprindo pena, “o programa foi muito bom para nós esquecermos do cotidiano daqui de dentro e do ódio e rancor da rua. Pessoas diferentes nos mostraram muitas coisas que nunca tínhamos visto; foi uma novidade para nós. Um modo diferente de aprender as coisas”. 
        E.B.S ressaltou que durante os sete anos que está no sistema penitenciário nunca viu um contato tão direto, uma interação da sociedade com os presos. “O programa do ‘seu Jayme’ (referindo ao juiz) - de incluir a gente na sociedade, um olhando para o outro no mesmo patamar, independente do crime e do erro cometido - é muito importante para nós. No começo, pensei que o juiz só veio para apresentar o projeto e iria cair fora. Mas não, ele não desistiu da gente, do projeto. É sinal que queria continuar." Ele afirmou ter agarrado a oportunidade com unhas e dentes.  “A gente não ‘ta’ acostumado a ter essa oportunidade de ouro que 'estamos' tendo aqui. Tenho fé em Deus que será expandida, pois há muitas pessoas sem horizonte, sem expectativa. Tenho três filhos e gostaria que eles se espelhassem em mim daqui em diante. O mundo proporciona tudo para todos e, infelizmente, optamos pelo lado ruim, por isso estamos aqui. Hoje temos a oportunidade de recomeçar.”
        Quando o juiz Jayme Garcia dos Santos Junior, da Vara de Execuções Criminais de Guarulhos, chegou ao pátio onde se encontravam os presos, E.B.S já lançou sua primeira pergunta: queria saber da continuidade do projeto, salientando que embora logo estaria livre, se o projeto iria ajudar os reeducandos que permaneceriam. “O projeto nos leva para outros caminhos.”
        O juiz respondeu que a possibilidade da continuidade dos trabalhos no próximo semestre é altíssima. Brevemente haverá reunião entre os parceiros para aprimorar o formato. “O encerramento hoje é uma comemoração da conquistas dos senhores. O senhor (referindo-se a E.B.S) fala com firmeza e com brilho nos olhos de ter conquistado algo. Ao ouvir essas palavras do juiz, E.B.S com o mesmo olhar completou: “nos enchemos de conhecimento e de autoestima!”
        O presidente do Conselho de Administração do Instituto Crescer para a Cidadania, Dilermando Allan Filho, um dos parceiros do projeto, falou da imensa satisfação de estar com eles. “Aderimos à causa com o coração. Temos o compromisso com o doutor Jayme para prosseguir. Hoje é um dia de recompensa para todos nós. Estamos aqui por entusiasmo, não por obrigação.” Júlio Suñe, um dos orientadores, professor de teatro e rádio, afirmou que a experiência de trabalhar com presos foi maravilhosa. “Está muito claro para mim que eles têm vontade de aprender, eles querem! O que falta é investimento do poder político. É impressionante como o pessoal é criativo. Eles têm a sede do saber”, conclui. 
        O cantor Dexter agradeceu o juiz Jayme Garcia pelo convite em fazer algo de bom aos sentenciados e deixou sua mensagem: "somos mais que simples reeducandos. Somos mais que um número. Somos seres humanos! A responsabilidade por estarmos aqui é nossa e de mais ninguém, mas somos capazes de assumir e aprender com os erros. Todas as moedas têm os dois lados". 
        Com o microfone na mão E.B.S também deixou sua mensagem dizendo que “tudo depende da gente, nós somos capazes. Eu acredito em mim, na minha capacidade. O importante é que fomos o modelo do projeto e que isso possa continuar. Que podemos ter uma estrutura melhor para adentrar no mundão afora”.
        A.R.S.N, de 48 anos, dez deles encarcerado, falou que o projeto melhorou sua autoestima, de como se comportar dentro e fora do sistema. “Abriu o horizonte que eu não tinha, a capacidade de comunicar com as pessoas. Quando eu estiver em liberdade quero incentivar os jovens para lutar para o bem e não ir pelo caminho do crime, pois não compensa.”
        Eduardo Bustamante, do Instituto Crescer, afirma que no inicio das atividades os presos se comunicavam com a cabeça abaixada, mas isso mudou e, agora, eles se comunicam com a cabeça levantada. 
        O juiz Jayme Garcia ressaltou em vários momentos a importância das parcerias para a realização dos projetos. “Nada disso seria possível se não tivéssemos a sociedade mostrando sua cara. Todo aquele que participa de alguma forma, contribui para uma sociedade melhor. Sintam-se todos abraçados; vocês  têm minha eterna gratidão”, completou .
        Para efetivação do projeto, houve a parceria entre a Vara das Execuções Criminais do Judiciário de Guarulhos, o Instituto Crescer, o rapper Dexter, a Assessoria de Comunicação Coletivo Peso, a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) e a direção da Penitenciária José Parada Neto.

        O projeto - O projeto surgiu quando o juiz Jayme Garcia soube que o cantor  rapper Dexter, na época cumprindo pena em Guarulhos, falava em algumas de suas músicas sobre prisão, crime e escolhas feitas no passado, mas que não lhe trouxe nada de bom. 
        O juiz percebeu que seria importante colocar alguém que vivesse a mesma situação dos demais reeducandos, para passar uma mensagem positiva, mostrando outras opções que não a do crime, pois Dexter fez a opção pela música. Convidou-o, então, para desenvolver um projeto cultural e artístico para mostrar aos reeducandos que eles têm outras opções na vida, diferentes daquelas que os levoram à prisão. Para o juiz, “a arte, em todas as suas formas de expressão, é a maior janela de interação que pode existir entre sentenciado e a população”. 
        Segundo Jayme Garcia, o cárcere é uma realidade social e o mero encarceramento não produz resultados positivos. "Há boas oportunidades fora, basta querer. A sociedade pensa que gasta dinheiro e tempo com o sentenciado e nada melhora. É muito importante trazer a sociedade para dentro da penitenciária e mostrar a esses homens que estamos interessados em sua reinserção. A sociedade se dispôs a entrar no cárcere, estabelecendo o intercâmbio entre a sociedade e os encarcerados.”
        As oficinas aconteceram na capela do semiaberto da penitenciária uma vez por semana. Os professores/orientadores eram voluntários convidados ou membros do Instituto Crescer. De acordo com o juiz, a ideia é levar o projeto também para o regime fechado.

        Assessoria de Imprensa TJSP – LV (texto) / DS (fotos)
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